Algumas redes varejistas saíram na frente e já estão adotando ou testando o modelo.

Em ano de eleições presidenciais, o fim da escala 6×1 deve figurar entre os principais temas quando se trata de direitos trabalhistas no País. Algumas redes varejistas saíram na frente e já estão adotando ou testando o modelo de escala 5×2 antes mesmo da aprovação do projeto, mas, segundo especialistas consultados pela Mercado&Consumo, a mudança pode gerar a necessidade de mais mão de obra e pressionar os preços.
Roberto Mateus Ordine, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), afirma que a exigência de mais trabalhadores para manter o mesmo nível operacional da escala 6×1 deve provocar elevação nos custos, o que tende a resultar em alta de preços. “Passar de dois para três turnos, por exemplo, acarretaria aumento de custos de cerca de um terço por produto, valor que seria repassado ao consumidor, já sobrecarregado pela carga tributária”, explica.
Paulo Sérgio João, professor de direito do trabalho da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que, se houver uma exigência legal para cumprir a jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso, o comércio precisará se adaptar, contratando mais funcionários para suprir a ausência no que hoje seria o sexto dia de operação.
“A duração de trabalho de 44 horas semanais há algum tempo não tem sido praticada pela maioria das empresas em seis dias da semana. No comércio varejista, dada a peculiaridade da atividade, em alguns centros comerciais ainda se adota, com mais frequência, a jornada 6×1”, destaca.

O movimento
O movimento pelo fim da escala 6×1 ganhou força após Rick Azevedo, então balconista de farmácia, publicar em 2023 um vídeo no TikTok com um desabafo sobre a falta de qualidade de vida no regime de trabalho de seis dias trabalhados e apenas um de folga.
No dia 2 de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso Nacional a pauta do fim da escala 6×1, colocando o tema entre as prioridades para o primeiro semestre deste ano. Já o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que a proposta deve avançar na Casa.
A mudança para a escala 5×2 também pode representar um avanço para os trabalhadores, especialmente em termos de bem-estar. Segundo o professor da PUC-SP, com a jornada reduzida sem perda salarial, eles passam a ter mais tempo de descanso nos finais de semana.
“Os trabalhadores ganham porque terão mais tempo de descanso semanal e não haverá redução salarial. Ganham também porque as empresas deverão suprir a ausência de mão de obra com a contratação de novos empregados”, afirma.
Varejistas aderem ao modelo
Embora ainda represente uma parcela pequena, grandes redes varejistas já estão adotando a escala 5×2 em suas operações. A rede de supermercados Pague Menos decidiu implementar o modelo com o objetivo de ampliar o poder de atração e retenção de colaboradores em suas lojas.
Após a adoção da escala 5×2, a companhia já observou mudanças positivas. “Embora ainda com pouco tempo de prática da nova escala, observamos um aumento notável na satisfação e no engajamento dos colaboradores, além da redução dos índices de turnover e absenteísmo, na comparação com meses anteriores. Ao longo do tempo, esperamos que esses bons indicadores se mantenham estáveis”, afirma Fernando Carneiro, diretor de Gente e Gestão da rede.
Segundo o executivo, até o momento, a Pague Menos não precisou realizar ajustes no quadro de colaboradores nem registrar aumento de custos operacionais, contrariando argumentos de que a adoção da escala resultaria em mais despesas para o setor. “A jornada semanal permaneceu em 44 horas, reduzimos o horário de funcionamento aos domingos nas lojas piloto e observamos uma redução significativa do turnover e do absenteísmo. Nossa expectativa é manter esse padrão nos próximos meses.”
O Grupo Savegnago também saiu na frente na adoção do modelo, que já foi implementado em todas as lojas da rede Savegnago Supermercados e nas unidades do Paulistão Atacadista. A decisão partiu da escuta ativa dos colaboradores e da busca por melhorias na qualidade de vida no trabalho.
“Observamos maior engajamento das equipes, o que refletiu positivamente na produtividade. O modelo mostrou que é possível manter, e até melhorar, os resultados com colaboradores mais satisfeitos. Atribuímos esse desempenho ao bem-estar do colaborador. Quando a pessoa se sente valorizada, descansada e com tempo de qualidade fora do trabalho, tende a atuar com mais foco, comprometimento e disposição”, afirma Michel Campos, gerente de Recursos Humanos do Grupo Savegnago.
De acordo com Campos, a adoção da escala 5×2 não gerou aumento de custos operacionais nem exigiu novas contratações, já que foram feitos ajustes na jornada diária, que passou a ser de 8h48. “Esse formato permitiu um melhor aproveitamento das horas efetivamente trabalhadas, garantindo a continuidade da operação.”
Varejo farma também adere ao modelo
Redes de farmácias também começaram a implementar o formato. As Drogarias Pacheco e São Paulo, do Grupo DPSP, implantaram a escala de trabalho 5×2 em todas as suas unidades, abandonando as tradicionais 6×1, comuns no varejo.
“Somos uma empresa que cuida de pessoas e estamos constantemente buscando formas de melhorar a qualidade de vida dos nossos colaboradores de loja. Somos as primeiras redes de farmácia a adotar a escala 5×2, totalizando cerca de 24 mil profissionais beneficiados pela mudança”, comenta o CEO do Grupo DPSP, Marcos Colares.
A iniciativa aumentará o número de folgas dos colaboradores de 64 para 96 ao ano. “A mudança traz mais equilíbrio e bem-estar para a vida dos nossos colaboradores, permitindo que eles tenham uma maior possibilidade de descansos em sequência. Além disso, impacta diretamente nos nossos objetivos a longo prazo, de trazermos cada vez mais saúde aos colaboradores, clientes e negócio”, complementa Colares.
A rede de varejo Coop também passou a adotar a escala de trabalho 5×2 em todas as suas drogarias. As unidades estão localizadas na região do ABC e nas cidades do interior paulista de São José dos Campos, Sorocaba, Piracicaba e Tatuí.
A mudança teve início nas drogarias em razão das características próprias desse formato de operação, como fluxo de clientes, cobertura de horários, dimensionamento das equipes e organização das jornadas.
Nos supermercados, a Coop também iniciou um projeto piloto da escala 5×2 em sua unidade de Piracicaba. “O projeto piloto em Piracicaba será fundamental para promovermos os aperfeiçoamentos necessários antes de estender o novo formato a todas as lojas de varejo alimentar. Não haverá alteração no horário de funcionamento e, se preciso, novas contratações poderão ser realizadas”, afirma o diretor-geral da Coop, Celso Furtado.
Adoção com cautela
Ordine, presidente da ACSP, destaca que, para o varejo como um todo, a discussão precisa ser feita sem pressa e com realismo. “Reduzir a jornada não é uma má ideia em si, mas está ‘fora do tempo’ para o Brasil neste momento. Qualquer adoção em larga escala precisa considerar produtividade, custos, disponibilidade de mão de obra e impacto no consumidor. Ou seja, é necessário repensar essa condição com cuidado antes de implementá-la.”
Ele ressalta a legitimidade da motivação por trás do movimento, com pessoas buscando mais tempo para a família, os estudos e uma melhor qualidade de vida. “Quando o 5×2 vem acompanhado, na prática, de redução de jornada, isso precisa ser tratado com muito cuidado no varejo brasileiro, porque o Brasil ainda é um País em desenvolvimento e enfrenta desafios de produtividade e modernização que não permitem ‘antecipar’ esse modelo sem efeitos colaterais”, salienta.
Modelo sustentável
Para Fernando Carneiro, da rede Pague Menos, o modelo de escala 5×2 no varejo é considerado sustentável a longo prazo, quando combinado a ajustes no horário de funcionamento das lojas, especialmente aos domingos, além do aumento da satisfação dos colaboradores, que se reflete em um melhor atendimento aos clientes.
“Considerando ainda a maior retenção de colaboradores e a redução das ausências no dia a dia, temos a expectativa de um aumento de produtividade nas lojas, equilibrando o impacto positivo dessa escala com as necessidades do negócio”, afirma.
Michel Campos, do Grupo Savegnago, também concorda. Segundo ele, a experiência tem demonstrado que a escala 5×2 é um modelo viável e sustentável para o varejo, desde que bem planejado e acompanhado de perto.
“Os resultados positivos em engajamento, produtividade e satisfação dos colaboradores indicam que é possível conciliar eficiência operacional com qualidade de vida”, completa.
🗒️ Pesquisa, Redação e Edição: Carlos Martins
✍️ Por Felipe Mario | Mercado & Consumo
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